Terra da raposa

O governo anuncia a desapropriação de uma enorme área, em nome da causa indígena. Com uma só canetada, produtores rurais são expulsos do local. Alguns deles morrem do coração, sem ter para onde ir; outros mais ricos se mandam para um País vizinho. Os alimentos encarecem nas cidades ao redor. Dez mil índios têm agora um milhão de hectares, e recebem bolsas de um banco público todo mês. O caso é defendido por autoridades acadêmicas nas capitais intelectualizadas do País, antropólogos alegam o direito ancestral da população. Sem que ninguém se dê conta — os jornais exploraram o que dava e já silenciaram sobre o caso —, misteriosos aviões de tripulação estrangeira realizam sobrevoos noturnos sobre a área demarcada. Sabem que, nas entranhas da terra, repousam imensuráveis crostas de minério. O brilho oculto, resplandecido ao luar, provoca-lhes o instinto. Ambicionam tudo, engravatados, colonizadores, em línguas guturais. Contra eles, nada podem as inofensivas flechas, acalmadas pelo escambo.

Favela, favela

A criança dá com uma latinha no chão, repetidas vezes, até que a sua mãe comece a gritar: “Vou te bater!” Um cachorro late constantemente. Passa um carro equipado: caixas de som enormes explodindo no porta-malas. A música é repetitiva como a lata que bate no chão, e fala sobre o quanto a mulher gosta do cantor, enquanto ele a violenta pelo sexo. Outra música sai da casa vizinha, o que significa que o seu dono despertou. As paredes são finas no bairro, todos se escutam. Não há nada romântico na vida real, embora alguns filmes tentem explorar isso, exportando miséria como se fosse exótico. Favela, favela, condição social. O dia amanheceu, há lamentos, lamúrias, lengalengas de desgraças (sinônimos das trevas) aqui e ali. Os alcóolatras despertam torturados. Cobranças adentram e se acumulam. Nunca houve essa coisa de indivíduos por aqui, a massa sofre em coletivo. Privações mútuas. E ouve-se a descarga da privada alheia. Crianças gritam, o cachorro late, uma lata bate e a música é de matar.

Lembrança de uma semana em 2008

I

O tutor se apresenta. Entre, aperte o cinto e ligue o carro. Já olhou os retrovisores? Ok. Abaixe o freio de mão, engate a primeira e solte a embreagem, enquanto pisa no acelerador. Seta para a esquerda. O carro desliza. O farol fecha logo adiante. Parou! Ponto morto. Os pedestres atravessam. Sinal verde. O processo se repete.

II

Cinco voltas num quarteirão. Agora pouco tava ensinando uma gostosa a dirigir. Tem umas que vêm com uma sainha, viu, difícil não ficar de pau duro.

III

Sério. Bebi um engradado inteiro de cerveja ontem, vendo televisão. A voz rouca. Ele saca um Marlboro e fuma com o braço pendurado do lado de fora do carro. Você também pode fumar, se quiser.

IV

Dia de baliza. Duas vassouras colocadas numa guia. Olhe lá o cabo, dê a ré, deixe-o aparecer no canto direito do retrovisor. Muito bem. Agora, sem acelerar, vire a direção para a direita, até o fim, vai… Direção reta, mais ré. Agora vire tudo para a esquerda, mais! Beleza. Cheque o espelho, tá muito longe. Vamos de novo.

Os feudos da mídia vão mal

O centenário The Washington Post, que teve a glória de derrubar o presidente Nixon nos Estados Unidos dos anos ’70, tem um novo rei: o rei do e-commerce Jeff Bezos, proprietário da Amazon.com. O jornal foi vendido por 250 milhões de dólares, um quarto do que o Facebook pagou pelo Instagram, e o redator-chefe Bob Woodward, que furou o caso Watergate e fez fortuna com seus livros, não disse mais que estar “muito triste”. “TWP sobreviveu a Nixon, mas não à internet”, lasca o portal Daily Beast. A família Graham, que reinava absoluta sobre a instituição instalada desde 1877 a três quarteirões da Casa Branca, aceitou a bagatela do aristocrata das Novas Mídias porque se via diante de problemas financeiros. “Podemos ver nessa transação a vingança da nova economia, a vitória das telas bilionárias sobre o pobre papel”, lamenta o editorial do Libération – castelo fundado há 40 anos por Jean-Paul Sartre – desta manhã. A tomada dá poderes políticos à Amazon, que tem interesses no congresso dos EUA.

Toda revolução deixa uma marca

“[…] São Francisco na metade dos anos 1960 era um lugar muito especial para estar, em um tempo muito especial para viver. Talvez tenha significado algo.

(…) parece bastante sensato imaginar que, vez ou outra, a energia de uma geração inteira atinge seu ápice num instante magnífico e duradouro, por motivos que na época ninguém compreende por inteiro – e que, em retrospecto, nunca explicam o que realmente aconteceu.

Todos compartilhavam uma sensação fantástica de que estávamos fazendo algo correto, mesmo sem saber o que era… Sentíamos que estávamos vencendo… E acho que essa foi a armadilha – essa sensação de vitória inevitável (…) estávamos na crista de uma onda imensa e linda…

E agora, menos de cinco anos mais tarde, basta subir um morro íngreme em Las Vegas e olhar para o Oeste com a predisposição adequada para quase enxergar a marca da maré – o lugar onde aquela onda enfim quebrou e se retraiu […]”

(In Medo e Delírio em Las Vegas, de 1974)

Sintomas de uma geração

— Como assim, ‘eu já passei dessa fase de revolucionário’? E o que aconteceu depois? Vou lhe dizer o que aconteceu, meu caro, você resultou num belo dum bundão!
— Alto lá! Veja bem o que resultou das ocupações de Wall Street: a consequência óbvia de uma tentativa de revolução sem propostas: um pouco de sangue, e o insucesso.
— O movimento Ocuppy Wall Street e outros, como o dos Indignados na Espanha, só mostram, ao meu ver, os sintomas de uma geração condenada pelos bancos.
— E fazer o quê? A economia ficou complexa demais, o mundo se financeirizou… as coisas encarecem sem parar, e não estou falando de inflação brasileira, não… viver ficou foda.
— Você já viu Cosmopolis, o último do Cronenberg?
— Não…
— É uma bela visão da merda que vai dar: uma cidade (Nova Iorque, é claro) faminta e desesperada por causa de uma crise absurda; um agente do setor financeiro percorre as ruínas dentro de uma limusine sem jamais perder a maldita postura engravatada… o inferno financeiro, enfim.

Conversa oculta

O síndico-geral do partido vermelho convoca o aspirante para uma reunião, em que explica o plano: “Tens de agir como adulto se queres parte do bolo. Organize sua fileira, faça-a crescer e marche contra o partido azul.” O jovem deixa escapar um espasmo, pensa em certo cargo que pretende ocupar e pergunta: “Mas e quanto ao nosso posto municipal, não será também prejudicado?” Seu superior já pensou em tudo: o poder estadual azul será imensamente mais prejudicado do que o círculo metropolitano dos vermelhos. “A polícia está a serviço dos azuis, ela agirá como surda. Quanto ao nosso homem, ele se fará de mudo. Agora vá.” O aspirante conclui amargamente, e mentindo, que fará isso não por interesse, mas por acreditar em mudanças que poderão germinar da ação.

– O povo marchará por direitos e encontrará outros motivos. Sairemos todos ganhando -, diz o aspira, que tenta se convencer.

– Sim, mas certifique-se de que o povo também apanhe bem, assim teremos os jornais, responde-lhe o macaco velho.